Mulheres 50+ da periferia vivem mais, consomem muito, mas enfrentam envelhecimento desigual

Um novo estudo do Data8 traça um retrato detalhado do envelhecimento nas periferias brasileiras e mostra que mulheres com mais de 50 anos, especialmente das classes C, D e E, vivem mais tempo, mas com menos saúde e segurança financeira.

A pesquisa “Velhices Periféricas”, revela que 55% das pessoas 50+ nas classes mais baixas são mulheres, índice que sobe para 59% na classe D. Cerca de 70% se declaram negras ou pardas, evidenciando como gênero, raça e renda se cruzam nesse processo.

O levantamento, que ouviu mais de 1.800 pessoas das classes C e D, mostra que essas mulheres frequentemente sustentam lares multigeracionais com média de quatro pessoas. Entre os entrevistados 50+, 43% ajudam financeiramente filhos e netos.

No mercado de trabalho, o prolongamento da vida ativa é regra e não escolha. Apenas 34% têm a aposentadoria como principal fonte de renda e, entre aposentados da classe D, 52% continuam trabalhando. A previdência privada é acessível a apenas 2%, e 41% recorrem ao trabalho autônomo para complementar ganhos.

Como consumidoras, elas têm peso expressivo. O público 50+ responde por 42% do consumo nacional e, nas classes C e D, movimenta cerca de R$180 bilhões por ano, segundo o estudo. Ainda assim, 80% afirmam que preço e promoção orientam suas decisões de compra, enquanto 56% valorizam marcas conhecidas e confiáveis.

A renda média mensal nas classes C e D gira em torno de R$1.600, bem abaixo dos R$7.800 registrados nas classes A e B, de acordo com dados do Instituto Data Favela citados na pesquisa. Mesmo com consumo ativo, esse dinheiro raramente se transforma em poupança ou patrimônio.

O estudo também aponta desigualdades profundas na expectativa de vida. Dados do Mapa da Desigualdade da Rede Nossa São Paulo mostram que, na cidade de São Paulo, mulheres podem viver em média 82 anos em bairros como Alto de Pinheiros e apenas 58 anos em regiões como Anhanguera, uma diferença de 24 anos.

Para os pesquisadores, o envelhecimento periférico é marcado por um descompasso entre tempo de vida, tempo saudável, tempo de trabalho e autonomia financeira. Vive-se mais, mas não necessariamente melhor, o que ajuda a explicar por que esse grupo, apesar de central na economia cotidiana, ainda se sente pouco reconhecido pelas marcas e pelo sistema de proteção social.